Setembro amarelo está aí, mês de intensificar a prevenção ao suicídio. Sendo ainda mais preciso, o dia 10 de setembro é o dia mundial de prevenção ao suicídio. O suicídio é tema tabu que precisa ser falado de forma responsável!

Existe um mito que aponta que falar incentiva o ato – grande engano, não é bem por aí! Falar possibilita e desdobra novidades! O silêncio é aliado do ato. Quem cala com o silêncio sente, desampara-se e beira a passagem ao ato extremista. É preciso falar do suicídio, escutar quem fala por sinais, por discurso de idealizações e pensamentos suicidas. Mediante acolhida se faz necessário ofertar tratamentos. É preciso acolher para que pela fala possibilite a prevenção e novos caminhos alternativos frente ao ato extremo de se auto-exterminar. O suicídio está entre as maiores causas de mortes mundiais, índice alarmante! Sendo tabu, pouco se sabe o que fazer. É tabu por tocar na questão da morte.

A morte é um enigma para quem vive, um enigma sem resposta que ora ou outra iremos encarar. A morte é tabu, pois gera uma angústia que ela coloca enquanto real. A morte dita que não somos eternos e não somos tão potentes quanto no nosso inconsciente acreditamos ser. Não se foge do tema da morte por mais incômodo este possa ser.

A vida, árdua que é, deve ser reinventada com as possibilidades de cada um. Muitos conseguem momentos felizes mesmo sem manual de instrução e ou regra de ouro que se aplique a todos, estes inventam e aprendem a fazer com o simples para encarar o complexo. Momentos obscuros, de extremo sofrimento, coloca em xeque se continuar a viver é válido. Esta questão de buscar acabar com a vida não tem idade não tem classe social, não tem cor, tampouco sexo e formato. A morte em momentos de desmedido sofrimento, perante o insuportável, é pensada como possibilidade única de saída. Muitos se matam em silenciosas repetições, outros em momentos gritantes. O suicídio é posto em cena; e agora? Certamente não dá para fugir do tema e ou desejar silenciá-lo, mas como abordá-lo?

Suicídio é questão de sofrimento e não de doença, é um ato perante o que não se suporta seguir adiante. Sofrimento demanda cuidado. Amizades ajudam, pois abrem leques, as palavras também! Quem de nós um dia não pensou em se matar? Não pensou em acabar com tudo? E quantos de nós ainda que desejássemos mesmo morrer, descobrimos que a vida pode ser mais gostosa, ainda que difícil? Quantos de nós voltamos atrás em desejos no nosso dia a dia? Imagina se estivéssemos acabado com tudo ali? Pois é, é preciso encarar o desespero como algo da vida e não recuar. Para que este momento de quando pensávamos em nos matar para acabar com algo se desdobra-se novamente ao embalo da vida, foi necessário um tratamento, não limitado ao âmbito médico, e nem à doença, mas sim à existência e à vida. E, tanto a existência quanto a vida, a gente trata é pelos afetos e palavras. Jamais se limita a questão do suicídio a solução pelos remédios é preciso algo mais, de falar, de reinventar, de tratar da vida e seguir. Análises, terapias, lazeres e família estão aí para isso, para tratar da vida!

As palavras promovem esperança devido ao leque que abrem e ao obscuro que clareiam! Matar-se é sem volta, este é o perigo maior. Em certos casos o medicamento pode ser necessário, uma vez que eu certos casos se tem a mistura insuportável da depressão, do uso de tóxicos, com a avassaladora angústia inclinada a atuar e isso pode ser extremamente perigoso. Devido a consequência em jogo, que pode ser sem volta, é necessário ter atenção onde há tensão. Falar do suicídio não o incentiva, falar do suicídio o coloca como vida, como algo que está entre nós a ser resolvido. E este algo não se resolve fugindo, ditando regras, mandando parar de falar e dizendo que é besteira, muito pelo contrário, você que é amigo e ou familiar de alguém que está dizendo que irá se matar, use a ferramenta do diálogo e escute o que ele tem a falar, ofertando logo em seguida ajuda e não críticas. Todos precisamos de ajuda para viver! Os que já tentaram suicídio e seguem dizendo que novamente tentarão também exigem cuidado e ajuda. A repetição participa de nossas vidas, tire por base seu dia a dia. A família também pode buscar ajuda, orientações e acolhidas.

Não suporta escutar? Saiba que a morte sendo tabu é combatida por vários discursos e estes podem sair ao avesso. Por não suportar escutar este buscam para evitar o suicídio reprimir as falas, punir, dizer que é coisa do capeta, que é ingratidão e tudo mais, e assim acabam promovendo, pelo avesso do que queriam, do que desejavam evitar, a concretude do ato. A ética não é do ser bonzinho, mandar calar como sinônimo de que irá pelo silêncio se salvar é danoso. Parece para quem não está do lado e não mais o escuta a falar de que a ideia e o sofrimento cessaram, mas este borbulha em quem está no insuportável da angústia e teve que se calar. Está ali, sofrendo em silêncio e fechado em possibilidades. Se calar é perigoso, viver faz barulho, dentro e fora. A ética é da consequência; é preciso sofrer falando do tema para mais viver. Ali onde inserem a culpa e pressão eles fazem “o tiro sair pela culatra”, pois aumentam o sofrimento. Escutar, suportar escutar, é importante neste tema, não criticar, não desafiar, escutar sem julgo e com acolhida é terapêutico. Muitos, por não suportar, buscam silenciar e tentando evitar a morte a ajuda acontecer de forma prematura, promovem o silêncio maior, a pessoa não mais diz, morre. A morte do suicídio é prematura perante o cristal do desejo, pois este termina sem ser melhor lapidado. Cristal sem lapidação é vidro de corte e sem valor, podendo ser descartado. Fazer dos detalhes, dos restos, vida é necessário para existir!

A acolhida é ponto central, não julgar, não combater. Campanhas do tipo “diga não ao suicídio” são tiros no pé. Não é o caminho, apontam repressão ao tema e não acolhida. O caminho não é reprimir, afastar o tema, é fazer falar para se reinventar!

Aos que não suportam ouvir e silenciam este tema que é do humano, combatendo-o de uma forma ou de outra, indica-se que acolha no que consegui e encaminhe a um profissional da escuta, seja o CVV (Centro de Valorização da Vida) que atende 24 horas pelo telefone 141 e são preparados perante o tema. Tem ainda psicólogos, psicanalistas em clínicas particulares, em centros de saúde mental, no SUS e em outros lugares. A escuta destes profissionais vão além da doença, toca na existência, na singularidade de viver.

Na clínica aprendi que a vida se renasce de outro modo quando dela se fala!

Parágrafo resumo: suicídio é tema humano que não se deve fugir. Falar abre leques e ofertar ajuda pode promover vidas. Desafiar, incentivar e punir quem pensa e fala de suicídio é covardia e não trata, podendo justamente promover o ato de se matar. Existem locais a serem procurados e sim, tal como todo tema existente e todo problema, este em nova solução pode ser embalo de vida!

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